Entrevistas :: Pacientes GOC - Gastro Obeso Center

Maira Sanches Moraes

 
Entrevista

P. Há quanto tempo você começou a sofrer de obesidade?
R. Sempre fui gordinha... mas, quando tinha 15 anos, meus pais se separaram e aí eu engordei muito. Pesava 86 kg e cheguei a 132 kg.

P. O que desencadeou?
R. Eu ficava muito nervosa e por isso comia muito e de forma errada.Não almoçava e não jantava, mas beliscava o dia inteiro alimentos como bolacha, cachorro quente e tudo aquilo que se possa imaginar que engorda.

P. Você não tinha refeições definidas?

R. Não. Hoje eu tenho café da manhã, almoço, pequeno lanche à tarde, jantar e antes de dormir como alguma coisa.
 
P. Não sente fome agora?
R. Nada.

P. Como você está trabalhando a questão da ansiedade?
R. A questão da ansiedade piorou muito quando eu vi que estava ficando muito gordinha. Hoje penso que se algo tiver que acontecer vai acontecer, não serei eu quem vai mudar nada. Então passei a pensar assim e, quando me dá muita ansiedade, começo até a roer as unhas. Comer muito não é possível. Passei a comer muito menos e, quando o estômago “fala” pára, eu paro.

P. Você buscou outros prazeres?

R. Passei a sair mais com os amigos ... quando estou nervosa ligo para os amigos e saio. Academia também.

P. Antigamente você também freqüentava academia?
R. Só naquela época em que eu pesava cerca de 86 kg. Mas parei porque me desestimulei, comecei a engordar muito e, em academia, você nunca vê um gordinho. Eu comecei a pensar: sou a única gordinha aqui, o que estou fazendo aqui, vou sair.

P. Na época do colégio você tinha dificuldades? Sentia alguma discriminação?
R. Houve quando eu era pequena, do pré até mais ou menos a 7ª série. Então eu emagreci um pouco, cheguei a 80 kg. Passei para a turma dos populares, sempre fui muito espontânea. Depois que meus pais se separaram e engordei, foram poucos os amigos que continuaram.

P. Mas esse afastamento dos amigos foi pelo fato de você ter engordado?
R. Sim. É muito fácil você ter um grupo de amigas bonitas, todas saírem para a balada, paquerar...quando existe uma gordinha no meio é diferente, tem sempre aquela que diz “que você é gorda”, “o que você está fazendo com a gente”, “você vai atrapalhar”. E hoje meu grupo de amigos é composto por aqueles que ficaram desde aquela época.

P. Você estuda?
R. Faço cursinho, quero fazer faculdade de Psicologia, na verdade Psicopedagogia. Sempre achei o mundo das crianças maravilhoso. Quero entender um pouco e ajudar, principalmente as crianças que passam pela separação dos pais. Eu passei por isso e sei como é e como pode ser resolvido.

P. Que tipo de cirurgia você fez?
R. By pass com a Capella por vídeolaparoscopia.

P. Por que o Dr. Almino ou a Dra. Manoela optou por essa cirurgia?

R. A Dra. Manoela disse que eu teria duas opções: poderia colocar o anel (Banda Intragástrica) ou fazer essa cirurgia. Com o anel eu perderia uma quantidade menor de peso.Sou muito desobediente e, se tivesse feito a outra cirurgia e tomasse refrigerante, leite condensado, que eu adoro, por exemplo, esses alimentos iriam passar e eu poderia não obter o resultado almejado. Eles escolheram essa modalidade pelos meus hábitos alimentares. O meu problema é justamente esse: eu gosto de comer doces, mas hoje não tanto quanto antes. Por isso, decidi pela Capella. Já que era para fazer, queria fazer direito, não gostaria de engordar novamente. Até um dia antes da cirurgia eu estava achando ótimo fazer a operação mas, faltando algumas poucas horas, comecei a chorar, fiquei bastante nervosa. Minha mãe tentou me acalmar dizendo que eu estaria sob os cuidados de bons médicos.

P. Você teve um certo desespero de não poder comer como antes?
R. Tive nos primeiros dias, principalmente quando via os outros comendo. Inclusive na época na Páscoa, tinha operado havia uma semana e meia e aí foi bem difícil não poder comer chocolate, por exemplo.

P. E o apoio da família como foi?
R. Antes houve muitas pessoas que perguntavam se eu iria mesmo fazer. Em dezembro do ano passado, fui ver meu primeiro médico que explicou como seria a operação. Fui também a um médico do Hospital das Clínicas, mas não gostei porque ele foi muito grosso. Fiz uma reclamação para onde tenho convênio e eles me falaram que tinha o Dr. Almino, que é um médico muito competente, muito bom, que muitas pessoas tinham feito a cirurgia com ele e que poderia fazer uma consulta. Na verdade, passei com a Dra. Manoela, inclusive, apesar de ter sido operada pelo Dr. Almino. Nunca o vi pessoalmente (risos).

P. Em termos de paquera, namoro...como era antes e como é agora?
R. Comecei a namorar em janeiro, antes da cirurgia. Vejo que todas aquelas pessoas que nunca me deram “bola”, agora me elogiam, dizem que estou bonita. Até o ciúme do meu namorado aumentou! Ele sempre foi muito seguro apesar da distância (ele mora no Rio de Janeiro) mas, depois que eu emagreci, ele ficou mais ciumento.

P. E hoje ... como ficou a relação com aqueles “amigos” que se afastaram? Eles tentaram se reaproximar?
R. Tentaram. Chegam a me convidar para festas e eu respondo que não posso porque já tenho outra festa para ir junto com aqueles amigos que sempre estiveram ao meu lado.

P. Qual a sugestão que você dá para aquelas pessoas que sofrem esse preconceito?
R. É muito complicado, eu chorei muito, fui ao psicólogo. Você tem que procurar estar perto de quem gosta de você; o seu amigo não vai ser aquele que diz para você se esconder em casa porque você é gordo e sim aquele que te incentiva a colocar uma roupa legal e sair. Minha mãe, principalmente, sempre me deu muito apoio também. Ela é minha melhor amiga.

P. Você está sendo acompanhada por nutricionista?
R. Comecei a fazer há pouco tempo porque estou tendo muita queda de cabelo.

P. Você está fazendo ginástica?
R. Sim. Faço academia.

P. Você tinha algum problema de saúde?
R. Estava começando a ter pressão alta e me cansava muito rápido.

P. Qual a mensagem que você pode passar para quem quer fazer a cirurgia?
R. A vida muda. Se você está pensando em fazer e está com medo, não deixe o medo vencer, porque vale muito a pena!A vida muda totalmente, sob todos os ângulos. A parte social, o trabalho... tudo!
 

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