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É como se um vulcão interno entrasse em erupção. Meia hora depois de comer, o estômago dispara uma bola de fogo que sobe "queimando" o tubo digestivo até chegar à garganta, onde espalha um gosto ácido. Às vezes, vem acompanhada de dor no peito, o que leva muita gente a desconfiar de um infarto. Em outras, provoca um acesso de tosse, que pode evoluir para uma asma.

Se você estiver enfrentado esses sintomas mais de uma vez por semana nos últimos seis meses, é melhor parar de apelar ao antiácido e procurar um médico. O problema pode ser DRGE (doença do refluxo gastroesofágico), um distúrbio digestivo que atinge cerca de 12% da população brasileira, segundo revela a primeira pesquisa epidemiológica de campo sobre a doença realizada no país.

O levantamento, feito pelo Datafolha a pedido de um laboratório, ouviu 14 mil homens e mulheres entre 16 e 90 anos em 12 áreas metropolitanas das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Os resultados serão apresentados em maio no DDW (Digestive Disease Week), em Orlando (EUA), o mais importante evento do gênero no mundo. Nos EUA, a doença ataca cerca de 20% da população.

A origem do refluxo gastroesofágico está no mau funcionamento de uma espécie de válvula chamada esfíncter inferior do esôfago, que existe para impedir que o alimento ingerido retorne do estômago, juntamente com o poderoso ácido gástrico que dissolve os alimentos e pode corroer a mucosa do esôfago.

A pesquisa revela que a DRGE é mais comum entre mulheres de 26 a 35 anos, mas avança em ambos os sexos a partir dos 55 anos. O motivo começa a ser analisado depois de os resultados da pesquisa serem publicados numa revista científica norte-americana, o que deve acontecer ainda neste semestre.

Vida moderna A DRGE pode ocorrer por defeito congênito em crianças a partir dos dois anos de idade. Entre os adultos, não faltam candidatos em potencial para desenvolvê-la. "O estilo da vida moderna, estresse, nervosismo, falta de tempo para as refeições e comida gordurosa são fatores que contribuem para o desencadeamento da doença", explica Joaquim Prado de Moraes, 62, professor de gastroenterologia da USP e coordenador científico da pesquisa.

Se a queimação for ocasional, consequência, por exemplo, de uma refeição exagerada, não há motivo para se preocupar. Caso ela se repita semanalmente, fique de olho nos sintomas, inclusive nos atípicos, como tosse e asma, que podem estar relacionados à DRGE. Eles ocorrem quando o ácido é aspirado e vai para o pulmão, trazendo complicações respiratórias.

Depois de uma avaliação médica, dependendo de sintomas e frequência, o paciente passa por uma endoscopia.

A classificação endoscópica de Los Angeles, a mais recente em uso no mundo, divide a doença em quatro estágios. No A, são detectadas uma ou mais feridas menores de 5 milímetros. Caso sejam maiores, levam a letra

B. Quando as feridas estão grudadas, mas não atingem 75% da circunferência do esôfago, recebem a classificação C. Se ocupam um espaço maior do órgão, são considerados D, críticos.

Os três primeiros casos costumam ser tratados com medicamento e dieta alimentar; o último, com cirurgia. O problema da endoscopia, segundo o professor Prado, é que 40% dos casos de DRGE podem não ser identificados pelo exame. Quando a doença ocorre nas camadas mais profundas da mucosa do esôfago, ela corre o risco de passar desapercebida. "Mesmo assim, se o quadro clínico for altamente sugestivo, esses pacientes são submetidos ao tratamento", diz Prado.

Além de alteração na dieta (veja quadro), comer devagar, caminhar após as refeições e só deitar duas horas depois de jantar, o paciente passa a tomar o chamado IBP (inibidor de bomba protônica), que reduz a produção do ácido gástrico. Em alguns casos, o uso do medicamento -um comprimido pela manhã, em jejum- deve ser feito pelo resto da vida.

O medicamento, explica o professor da USP, impede a produção do ácido do estômago, responsável por misturar os alimentos. "Antigamente, acreditava-se que o estômago não funcionaria sem o ácido, mas hoje sabe-se que 90% da digestão ocorre no intestino", diz Prado, que também é chefe do Grupo de Esôfago e Motilidade Digestiva do Hospital das Clínicas.

Sem grandes cortes A alternativa para não tomar medicamentos para sempre é a cirurgia laparoscópica, uma operação que "torce" o estômago criando uma nova válvula. Adotada há cerca de dez anos, a laparoscopia é orientada por uma microcâmera introduzida em cinco pequenos cortes na região entre o estômago e o esôfago. Na opinião do professor da USP, porém, ela só deve ser feita em casos extremos.

O cirurgião gastroenterologista Almino Cardoso Ramos, 40, do hospital Nove de Julho, discorda. "Pacientes com crises frequentes terão que manter a dieta rígida, tomar o medicamento pelo resto da vida, além de usar a cabeceira da cama elevada, para evitar o refluxo noturno. Com a cirurgia, ele fica livre da doença e de todos esses cuidados", defende.

Esse tipo de cirurgia oferece uma série de vantagens ao pacientes que sofrem de DRGE, explica o cirurgião do aparelho digestivo Marcelo Averbach, 43, do hospital Sírio Libanês. "É menos dolorosa. Como não há cortes, a recuperação é mais rápida. O paciente não precisa ficar internado sete dias. Fica em média dois", explica. "Sem contar o lado estético, agora não se corta mais a barriga como antes."

Segundo Averbach, a cirurgia vem conseguindo bons resultados, mas há riscos, como em qualquer operação. Cerca de 1% dos pacientes podem sofrer complicações cirúrgicas. Não há limite mínimo de idade para a operação.

[por Roberto de Oliveira]
 
O cirurgião gastroenterologista Almino Cardoso Ramos, 40, do Hospital Nove de Julho, discorda. "Pacientes com crises freqüentes terão que manter dieta rígida, tomar o medicamento pelo resto da vida, além de usar a cabeceira da cama elevada para evitar o refluxo noturno. Com a cirurgia, ele fica livre da doença e de todos esses cuidados", defende.
 
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